terça-feira, 8 de abril de 2008

Desire


Querer

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

de Pablo Neruda

Dream


Eu Soube

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

de Pablo Neruda

quinta-feira, 27 de março de 2008

Uma das nossas


Meu amor meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.


de Ary dos Santos, in As palavras das Cantigas

quarta-feira, 26 de março de 2008

Waiting for it


Shiki ... e a Primavera tarda ...

Na praia arenosa,
pegadas. É primavera —
longo vai o dia.

Passada a tormenta,
sol tardio brilha na árvore
onde a cigarra canta.

Nuvens ondeantes —
amontoadas ao sul,
barcos, brancas velas.

Perto das ruínas,
as aves a vaguear
por entre o hibisco.

Na curva da estrada,
já pode avistar-se o templo —
rústicos crisântemos.

Aqui e ali
um veado transparece
no meio dos arbustos.

Não há jardineiro —
o jardim em liberdade
e por aparar.

O sol da tardinha
trespassa a vegetação,
pousando na rede.

Na ilha do lago,
lá onde ninguém habita,
é densa a folhagem.


de Matsuo Bashô

terça-feira, 25 de março de 2008

Num dia de frio ...


Redacção

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

Não de amor por ela,
mas «de amor, de amor».

À parte aquelas trivialidades
«minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.

de Alexandre O'Neil