quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Cold and harm


Inverno

Declínio —
um dente acusa um grão de areia
nas algas secas

Intempérie —
infiltra-se o vento
até na minha alma

Tão esguia a gata
Não da falta de cevada
mas do amor

Um vento glacial sopra
Os olhos dos gatos
pestanejam

As mãos no lume
... e na parede
a sombra do meu amigo

Primeira neve —
basta um floco
para vergar a folha do junquilho

Kisagata —
Seishi adormeceu à chuva
Húmidas mimosas

Se parados pelas nuvens
dois patos selvagens
Dizem-se adeus

Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta


de Matsuo Bashô

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Japanese Crow


Outono

Outono:
velhos parecem até
os pássaros e as chuvas

Trevos roxos
ondulam sem deixarem cair
uma só gota de orvalho

Cai uma castanha...
Calam-se de súbito os insectos
entre as ervas

Crepúsculo:
as ervas parecem seguir
os rebanhos que recolhem

Vento de Outono —
até as pedras do Monte Assama
voam

Ah este caminho
que já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo

Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago

Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas

No outono nos separamos
como duas conchas
da amêijoa

Outono —
empoleirado num ramo seco
um corvo


de Matsuo Bashô

A beautiful picture


Borboletas

Aos casais... - ante a espessa ramaria verde, e rendada ao sol deste verão - livres, felizes, cheias de alegria as borboletas pelos céus se vão... Despreocupadas... pela floração se perdem, numa inquieta correria... - Onde foram?... e em que lugar estão? Já não se vê o olhar que as perseguia... Mas... de repente, voltam pelo espaço, - trêmulas e amorosas de cansaço, asas roxas e azuis coo violetas... E invejoso pensei, vendo-as pelo ar: - quem me dera nascer, viver e amar, como aqueles casais de borboletas
de Desconhecido

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Muitas


Tulips

(...)
The walls, also, seem to be warming themselves. The tulips should be behind bars like dangerous animals; They are opening like the mouth of some great African cat, And I am aware of my heart: it opens and closes Its bowl of red blooms out of sheer love of me. The water I taste is warm and salt, like the sea, And comes from a country far away as health.
de Sylvia Plath

Cascata


Verão

Preso na cascata
um instante:
o verão

Frescura:
os pés no muro
ao dormir a sesta

Com relutância
emerge e abelha
do coração da peónia

Visto à luz do sol
é apenas mais um insecto
o pirilampo

Narciso e biombo
um o outro ilumina
branco no branco

Silêncio:
as cigarras escutam
o canto entre as rochas

Sensação de vazio
Ao despedir-me colhi
uma espiga de trigo

As cigarras cantam
sem saberem que é a morte
que as escuta

Ervas do estio
Eis o resta
do sonho dos guerreiros

No pôr do sol
entre as papoilas brancas
as faces curtidas dos pescadores


de Matsuo Bashô